domingo, 22 de fevereiro de 2009

ORÁCULO

Há muito tempo, no reino da patagônia ( ou qualquer outro nome que pareça distante e quase irreal ) havia um rei.Um rei passivo.
Súditos sussurravam-lhe com os olhos tudo aquilo que devia fazer, e ele, sem qualquer hesitação, cumpria todas as ordens, uma a uma, respectivamente, por mais contraditórias que fossem entre si.
Ninguém nesse lugar conhecia o tédio, não havia sequer uma palavra para designar esse sentimento, tão comum ao homem atual, e convenhamos tão desgastante.
Tudo era o novo, o tempo todo, principalmente para o rei, tão atarefado estava no cumprimento do seu dever.
Seu salão era composto de inúmeros lugares, onde o povo sentava para observar, e sem saber, comanda - lo.
Ele ficava do início ao fim de cada período, dentro de um invólucro brilhante, que mudava constantemente de cor; percebia tudo o que se passava, mas ninguém o via. Colhia todos os olhares e dava a cada qual e tirava a cada qual conforme as ordens recebidas.
Sempre acontecia de um súdito ( geralmente criança ) maravilhar-se com alguma mudança de cor no invólucro real, ao que sucediam-se construções muito específicas no reino. Na verdade, não havia lugar em que se caminhasse, sem ver, longe ou perto, uma construção de olhar maravilhado de criança.
Algumas precauções eram tomadas na entrada do salão do rei: ninguém entrava armado, nem podia despojar-se de suas vestes.
Viajantes eram bem vindos, e homens e mulheres e crianças e idosos. Cartas eram remetidas para todo o reino, lembrando os habitantes da importância de acompanhar as mudanças de cor no invólucro real, que era chamado com justiça de “oráculo”.
Cada cor, matiz, tom mais ou menos luminoso ou sombrio, era interpretada pelos “sábios” que “profetizavam” ou “vaticinavam” mudanças que haveriam de ocorrer, em maior ou menor espaço de tempo.
Frequentemente, os “sábios” erravam em suas previsões, uma vez que não sabiam exatamente o que era o “oráculo” e como ele dizia (assim acreditavam) o que iria acontecer.
Mas acabaram percebendo que as construções de olhar maravilhado de criança tinham relações com mudanças de cor especialmente harmônicas e belas – eles chamavam essas construções de outros nomes ( tão variados que seria tarefa árdua, inútil e enfadonha enumera-los).
É claro que não eram as únicas, mas eram, com certeza, as mais bonitas.
Muitas pessoas iam ao salão.
Muitas coisas foram criadas.
Muito tempo passou desde então.
Todos mudaram.
Os olhares mudaram.
As coisas amadurecem, caso vocês não saibam, o tempo passa, pessoas nascem e morrem, não há dois dias em que a manhã seja exatamente igual, a maré sobe e desce, cachorros saltam para pegar seus ossos e ninguém (ou bem poucas pessoas silenciosas) sabe por onde gira a roda da causalidade.
Com o tempo, o salão aumentou muito, e cada construção de olhar maravilhado de criança tornou-se um “oráculo”.

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